Arábia Saudita e Rússia: a luta pelo petróleo

21-04-2020

Cartoon Movement 

Por: Carolina Esteves


A pandemia do COVID-19 está a atingir imensos setores, no entanto, ainda não são conhecidas todas as possíveis consequências da mesma. Um dos setores debaixo do holofote neste momento é o do petróleo. O preço do barril de petróleo, por exemplo do tipo Brent, diminuiu esta segunda feira 30%, para 31,02 dólares, sendo este, um mínimo desde 2016. Esta foi uma consequência do desentendimento entre a Arábia Saudita, considerada líder informal da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), e a Rússia, relativamente ao modo de proceder face à diminuição da procura de petróleo.

Esta discussão de preços, levou ao decréscimo dos mesmos. Revelou-se também nos mercados acionistas, que registaram as maiores quedas diárias desde a crise financeira de 2008. Em primeiro relance, poderá ser afirmado que as consequências desta discordância não serão assim tão negativas, considerando que umas das maiores será a diminuição do preço dos combustíveis, mas para o setor dos transportes, como na aviação e por associação o turismo, este acontecimento é visto como um sintoma de recessão.

Face à queda dos preços provocada pela pandemia, e visto que isto estava a afetar a procura de combustível para os transportes na China, a capital da Arábia Saudita, Riade, propôs um corte na produção do produto, em mais de 1,5 milhões de barris por dia, ou seja, reduzir a produção mundial em cerca de 3,6%. No entanto, Vladimir Putin não concordou com esta proposta e a Arábia Saudita decidiu responder cortando os preços e fazendo com que os exportadores com menos quota de mercado fossem encostados contra a parede. 

Sendo a maior exportadora e também proprietária das maiores reservas a nível mundial a própria Riade, tirando partido disso, segundo o jornal Financial Times, planeou o aumento da produção para mais de 10 milhões de barris diários. Mas a Rússia não recuou e respondeu da mesma forma, afirmando conseguir sustentar os preços baixos durante um período de seis a dez anos. De acordo com vários analistas, esta poderá não ter sido a melhor decisão por parte da Arábia Saudita, mas vai de encontro à forma de governo do príncipe Mohammed Bin Salman, que já habituou o mundo ao risco de alguns dos seus planos como forma de se afirmar perante o mesmo, tendo simultaneamente em conta que a economia saudita não é imune a choques destes.

Do lado russo, Vladimir Putin preferiu esperar um pouco para ver quais seriam as consequências de tudo isto antes de tomar as suas decisões. Alguns argumentam que o corte na produção do lado de Moscovo iria ajudar os Estados Unidos da América, que cada vez mais aumentam como produtor de petróleo a nível mundial, e retirando dessa forma o poder à Rússia. No dia 1 de abril, o ministro da Energia da Rússia, Alexander Novak, sugeriu que os países da OPEP poderiam continuar a sua produção normalmente, atitude esta que foi interpretada por muitos como a "assinatura da sua própria certidão de óbito" devido à queda de cotações internacionais num mercado com um excesso de petróleo tão grande. 

Com tudo isto, Novak perdeu a batalha contra os sauditas, que com a qualidade do seu petróleo, sobretudo a baixo preço, tinham a noção que muitas refinarias iriam comprar o seu petróleo, perdeu receitas para a Rússia, e neste momento, tal como todos nós, depara-se com a guerra contra o COVID-19, que por consequência diminuiu o consumo mundial e resultou em enormes excedentes.

Referências:

BBC News Mundo. (2020). A guerra de preços entre Rússia e Arábia Saudita que derrubou o preço do petróleo (online). Obtido de: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-51799906

CAETANO, E., OLIVEIRA, V., SUSPIRO, A. (2020). Coronavírus abre "guerra" entre Arábia Saudita e Rússia. Preço do petróleo com maior descida desde a Guerra do Golfo (online). Obtido de: https://observador.pt/2020/03/09/petroleo-cai-30-para-31-dolares-nao-se-via-nada-assim-desde-a-primeira-guerra-do-golfo/

FERREIRA J. (2020). Mercado petrolífero em preços mínimos confirma erro estratégico do Ministro da Energia russo (online). Obtido de: https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/mercado-petrolifero-em-precos-minimos-confirma-erro-estrategico-do-ministro-da-energia-russo-569509

RTP. (2020). Arábia Saudita alimenta guerra do preço do petróleo ao aumentar exportação de barris (online). Obtido de: https://www.rtp.pt/noticias/economia/arabia-saudita-alimenta-guerra-do-preco-do-petroleo-ao-aumentar-exportacao-de-barris_n1216809 

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