Chega de André Ventura

04-04-2020

Nuno Ferreira Santos

Crónica por João Pedro Canário

Costuma-se dizer que circo só pega quando se dá confiança ao palhaço e foi o que aconteceu. Quem não gosta de circo, agora tem de aguentar a palhaçada e isto não eleva nada o debate democrático...

Dizer em voz alta o que se diz nos cafés não é propriamente bom. Nem tudo aquilo que se ouve por aí é verdade, na maioria das vezes resulta de insinuações pouco ou nada fundamentadas, desinformação acima de tudo. E isto é a força motriz do populismo. Dizem aquilo que as pessoas querem ouvir, o grande problema é que muitas pessoas só prestam atenção aquilo que lhes convém e banalizam as restantes. Não se trata de dar tudo aquilo que as pessoas querem, mas sim o que precisam.

Este tipo de partidos ultra-oportunista alimenta-se na fonte inesgotável da desilusão do seu potencial eleitorado. Qualquer coisa serve para os cativar, quanto mais sensacionalista melhor, o objetivo é ter palco para debitar os bitaites mais descabidos, uma espécie de monólogo fanático feito por um acéfalo isento de dados credíveis, fundamentação e racionalidade. Um discurso excessivamente fácil e demagógico minado de mentiras reconfortantes para todos aqueles que metem os políticos no mesmo saco e acham que isto só lá vai com um Salazar em cada esquina. Isto é um rastilho que se acende rapidamente num país como o nosso. É cada vez mais difícil desconstruir esta narrativa, muitas pessoas querem acreditar naquilo que estão a ouvir, a estratégia tem sido instrumentalizá-las através das emoções.

Cabe aos meios de comunicação escrutinarem de fio a pavio este partido e em especial esta individualidade. Só assim saberemos verdadeiramente o que representa este fenómeno. Foi o que aconteceu quando se começou a investigar a alteração do programa eleitoral deste partido. O grande problema é que após estas investigações, o oportunismo do Chega! atingiu máximos nunca vistos e encarregou-se de difundir a mensagem que tudo isto eram calúnias perpetradas pelos media. Estas teorias da conspiração querem sobretudo incitar ao ódio. Todas as ditaduras começaram assim. Sorrateiramente. Minando a credibilidade da Democracia e das suas instituições. Quem acredita nisto está a alimentar uma farsa que pode vir a ter consequências devastadoras a longo prazo.

O grande problema disto tudo é que parece que já existe quase um culto de personalidade por parte dos fanáticos deste partido que idolatram André Ventura coberto no seu narcisismo extremo e sedento de protagonismo. Este pseudo-salvador da pátria que quer ser venerado por dar lições de moral aos "maus da fita", no fundo não passa de um falso-moralista de primeira, ora vejamos:

- Tem na boca o discurso anti-aldrabões e para a formação do seu partido apresentou ao Tribunal Constitucional dezenas de assinaturas falsas onde constavam menores e falecidos.
- Repudia as subvenções vitalícias que ainda subsistem e integrou como porta-voz um usufrutuário da mesma: António Sousa Lara.

- Apregoou orgulhosamente em campanha eleitoral o regime de exclusividade dos deputados e agora acumula simultaneamente esse cargo com o de comentador televisivo e consultor.

- Alterou o seu Programa eleitoral depois das eleições legislativas. Algo inédito em Portugal. A regra que aqui se aplica melhor mais parece aquela mítica frase de Groucho Marx: "Esta é a minha verdade se não concordarem com ela, tenho outra!"

- Pretende instigar o ódio a uma etnia: a cigana, por ser intitulada de subsídio-dependente. Quando apenas 3,8% (5.275 famílias) dos usufrutuários de RSI são desta etnia versus 96,2% (130.153 famílias) de portugueses. Esta foi a estratégia que arranjou para explorar a xenofobia oculta dentro de cada um e tentar ganhar votos de quem acredita neste boato há muito enraizado na sociedade portuguesa.

- Não quer ser apelidado de extremista, mas integra neo-nazis nos quadros do seu partido.

- É contra a corrupção, desde que não se envolva o SLB - Sport Lisboa e Benfica nessa lista.

- Critica o despesismo de Estado e é o novo partido com mais funcionários ao serviço do seu gabinete na Assembleia da República.

- Defende a extinção dos políticos profissionais quando no fundo tem sido um, participando em todas as eleições: Europeias, Legislativas e agora, as Presidenciais. Um verdadeiro One Man Show, em que não existe mais nenhum candidato a não ser si próprio.


Este menino do coro puritano - que segundo o mesmo, recebeu uma missão divina para reerguer Portugal - não passa de um perfeito hipócrita. Já cometeu mais erros em meses do que certos políticos em anos de funções. Isto sim, é uma vergonha. Se os exemplos tem de vir de cima como tanto apregoa que ponha em prática tudo aquilo que tanto defende. Ainda assim, com todo este rol de episódios suficientemente polémicos, coberto na sua pseudo-sapiência continua a achar-se dono de verdades absolutas, parece mesmo que quer implementar uma ideologia dominante e todos aqueles que o questionam ou pensam de maneira diferente são silenciados, satirizados ou mesmo acusados de serem tudo e mais alguma coisa. Vê nos adversários um inimigo a abater. É avesso ao debate. Só as ideias dele é que valem. Isto é anti-democrático. Sem diálogo e moderação não há democracia!

O que distingue um populista de um político é que o primeiro apenas questiona ou lança rastilhos enquanto que o segundo apresenta respostas e soluções concretas/exequíveis aos problemas dos demais.

Ainda ninguém se capacitou que os populistas são um produto do atual sistema, só duram até este existir. O que será de um populista quando não tiverem nada que criticar? O que acontecerá quando forem eles o objetos da critica? Vale a pena pensar nisto, porque se vierem a ser poder, como se julgam perfeitos, a única forma de fazer jus a isso, quando tal não acontecer é controlar meios de comunicação e aniquilar a atuação da oposição. No fundo, pintar a realidade à sua maneira, sempre favorável,à boa moda das grandes ditaduras, digamos. É isto que querem?

Desconfiem sempre de quem diz uma coisa, só até lhe ser conveniente outra.

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