Chega de André Ventura

Nuno Ferreira Santos
Crónica por João Pedro Canário
Costuma-se dizer que circo só pega quando se dá confiança ao palhaço e foi o que aconteceu. Quem não gosta de circo, agora tem de aguentar a palhaçada e isto não eleva nada o debate democrático...
Dizer em voz alta o que se diz nos cafés não é propriamente bom. Nem tudo aquilo que se ouve por aí é verdade, na maioria das vezes resulta de insinuações pouco ou nada fundamentadas, desinformação acima de tudo. E isto é a força motriz do populismo. Dizem aquilo que as pessoas querem ouvir, o grande problema é que muitas pessoas só prestam atenção aquilo que lhes convém e banalizam as restantes. Não se trata de dar tudo aquilo que as pessoas querem, mas sim o que precisam.
Este tipo de partidos ultra-oportunista alimenta-se na fonte inesgotável da desilusão do seu potencial eleitorado. Qualquer coisa serve para os cativar, quanto mais sensacionalista melhor, o objetivo é ter palco para debitar os bitaites mais descabidos, uma espécie de monólogo fanático feito por um acéfalo isento de dados credíveis, fundamentação e racionalidade. Um discurso excessivamente fácil e demagógico minado de mentiras reconfortantes para todos aqueles que metem os políticos no mesmo saco e acham que isto só lá vai com um Salazar em cada esquina. Isto é um rastilho que se acende rapidamente num país como o nosso. É cada vez mais difícil desconstruir esta narrativa, muitas pessoas querem acreditar naquilo que estão a ouvir, a estratégia tem sido instrumentalizá-las através das emoções.
Cabe aos meios de comunicação escrutinarem de fio a pavio este partido e em especial esta individualidade. Só assim saberemos verdadeiramente o que representa este fenómeno. Foi o que aconteceu quando se começou a investigar a alteração do programa eleitoral deste partido. O grande problema é que após estas investigações, o oportunismo do Chega! atingiu máximos nunca vistos e encarregou-se de difundir a mensagem que tudo isto eram calúnias perpetradas pelos media. Estas teorias da conspiração querem sobretudo incitar ao ódio. Todas as ditaduras começaram assim. Sorrateiramente. Minando a credibilidade da Democracia e das suas instituições. Quem acredita nisto está a alimentar uma farsa que pode vir a ter consequências devastadoras a longo prazo.
O grande problema disto tudo é que parece que já existe quase um culto de personalidade por parte dos fanáticos deste partido que idolatram André Ventura coberto no seu narcisismo extremo e sedento de protagonismo. Este pseudo-salvador da pátria que quer ser venerado por dar lições de moral aos "maus da fita", no fundo não passa de um falso-moralista de primeira, ora vejamos:
- Apregoou orgulhosamente em campanha eleitoral o regime de exclusividade dos deputados e agora acumula simultaneamente esse cargo com o de comentador televisivo e consultor.
- Alterou o seu Programa eleitoral depois das eleições legislativas. Algo inédito em Portugal. A regra que aqui se aplica melhor mais parece aquela mítica frase de Groucho Marx: "Esta é a minha verdade se não concordarem com ela, tenho outra!"
- Pretende instigar o ódio a uma etnia: a cigana, por ser intitulada de subsídio-dependente. Quando apenas 3,8% (5.275 famílias) dos usufrutuários de RSI são desta etnia versus 96,2% (130.153 famílias) de portugueses. Esta foi a estratégia que arranjou para explorar a xenofobia oculta dentro de cada um e tentar ganhar votos de quem acredita neste boato há muito enraizado na sociedade portuguesa.
- Não quer ser apelidado de extremista, mas integra neo-nazis nos quadros do seu partido.
- É contra a corrupção, desde que não se envolva o SLB - Sport Lisboa e Benfica nessa lista.
- Critica o despesismo de Estado e é o novo partido com mais funcionários ao serviço do seu gabinete na Assembleia da República.
- Defende a extinção dos políticos profissionais quando no fundo tem sido um, participando em todas as eleições: Europeias, Legislativas e agora, as Presidenciais. Um verdadeiro One Man Show, em que não existe mais nenhum candidato a não ser si próprio.
O que distingue um populista de um político é que o primeiro apenas questiona ou lança rastilhos enquanto que o segundo apresenta respostas e soluções concretas/exequíveis aos problemas dos demais.
Ainda ninguém se capacitou que os populistas são um produto do atual sistema, só duram até este existir. O que será de um populista quando não tiverem nada que criticar? O que acontecerá quando forem eles o objetos da critica? Vale a pena pensar nisto, porque se vierem a ser poder, como se julgam perfeitos, a única forma de fazer jus a isso, quando tal não acontecer é controlar meios de comunicação e aniquilar a atuação da oposição. No fundo, pintar a realidade à sua maneira, sempre favorável,à boa moda das grandes ditaduras, digamos. É isto que querem?
Desconfiem sempre de quem diz uma coisa, só até lhe ser conveniente outra.